Enganar o frio com cobertores de papa

4 Dezembro, 2013 — Deixa um comentário

Eram os cobertores lá de casa, os de papa. O frio intenso da Beira Alta era difícil de enganar e nem a lareira o conseguia fazer por estar confinada a uma só divisão, a cozinha (ponto de encontro da família). Os quartos não tinham aquecimento mas, naquela altura, há uns largos anos atrás, o corpo aguentava mais. Agora com a casa mais aquecida (abençoados aquecedores a óleo), parece que sinto mais o frio de cada vez que regresso a Pinhel. O corpo desabitua-se, pede mais calor.

Os cobertores de papa, apesar de pesados, peludos e com um cheiro muito particular, faziam as vezes dos aquecedores. O pijama era vestido “a correr” e a entrada na cama era ainda mais rápida. Depois ficava ali, aconchegada, quentinha, sem quase me mexer até o sol raiar. Era todo um ritual. O tempo passou e os cobertores deixaram de ser usados regularmente. Ficaram confinados às zonas mais frias da casa de Pinhel, aos quartos do sótão, para aquecer possíveis visitas mais friorentas.

O mesmo aconteceu com a fábrica do Sr. Artur Freire de Maçainhas. O pouco uso deste cobertor artesanal de lã de churra de ovelha ditou o fim da mítica e única fábrica artesanal de cobertores de papa do país. O último tecelão do país fechou portas em Dezembro de 2012.

Na tentativa de salvaguardar este conhecimento artesanal a Escola de Artes e Ofícios do Centro Social e Paroquial de Maçainhas lançou um curso de tecelagem que terminou em Junho deste ano. A aposta vai mais longe com a tentativa de se criar um centro de interpretação da lã para que o fabrico de cobertores de possa voltar a ser possível. Os esforços de preservação do processo de fabrico artesanal do cobertor de papa, por parte da comunidade de Maçainhas, são notórios e de louvar.

Os cobertores são parte importante da identidade deste pequena aldeia, perdê-la está fora de questão. Enquanto houver pessoas na aldeia, haverá a passagem deste testemunho, forma encontrada de vincar e perpetuar parte da nossa tradição fabril.

Se Maçainhas perde, Portugal perde.

(Texto: Raquel Félix/ Portugalize.Me/ Imagens: A Vida Portuguesa)

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