Fazer do trabalho uma herança…

28 Janeiro, 2014 — Deixa um comentário

Portugalize.Me_Peixaria Centenária

O que é que queres ser quando fores grande? Respondi várias vezes e de formas muito diferentes a esta pergunta. As respostas iam variando à medida que ia descobrindo novos mundos até que parei… por enquanto.

Os meus avós paternos eram peixeiros, daqueles que andavam de porta em porta, de terra em terra a vender o que de melhor o mar tem e, apesar de o fazerem no interior de Portugal, o peixe era fresco, chegava todos os dias de várias lotas do país (Peniche, Aveiro, Matosinhos, Figueira da Foz). O meu pai seguiu-lhes os passos desde muito pequeno apregoando o bom peixe com a sua voz de gaiato, alto e em bom som.

Recordo o cheiro salgado do peixe fresco das carrinhas frigoríficas que levavam o meu pai até às lotas e nas quais fazia questão de me sentar apenas por uns breves minutos, por parecer estar no cockpit de um avião (o tablier era alto e eu era muito pequena, os meus pés não tocavam o chão quando me sentava… coisas de criança que a vida me permitiu fazer). O meu pai, Alcides de nome, agarrou esta herança e fez dela o seu trabalho, a sua solene profissão de todos os dias. Até hoje e talvez até morrer porque a sabedoria de ser peixeiro o faz viver.

O pai Alcides é uma máquina de 68 anos que se levanta diariamente com a madrugada para poder escolher o melhor peixe fresco para os seus clientes (no supermercado que gere com a minha mãe, a mãe Fátima). Quando a porta abre, o peixe está pronto, exposto na farta banca lá do sítio. Há clientes que ligam para saber qual o peixe do dia, outros há que preferem ver o peixe com os seus próprios olhos, uns levam na hora, outros encomendam ou deixam o meu pai escolher, por confiarem na sua arte, a maior herança que o meu pai recebeu dos pais.

O Rui vem de uma família de peixeiros e jurou nunca vir a ser um. A avó e a mãe da Joana sempre estiveram ligadas ao peixe (a mãe, assim continua em santa Maria da Feira). O Filipe herdou o gosto do mar também através da mãe e a Tânia, é a peixeira de serviço que vira e revira o bom peixe da Peixaria Centenária.

A Peixaria Centenária, que nasceu da herança de várias gerações e de um saber que tem vindo a diluir-se por entre grandes superfícies que fazem do peixe apenas mais um produto no meio de tantos outros, uniu amigos com uma história familiar comum (os que não queriam ser peixeiros, os que nunca sonharam ser e os que talvez experimentassem vir a ser um dia).

A Peixaria traz à cidade de Lisboa uma arte redescoberta, com direito a lugar de destaque… porque isto de se ser peixeiro tem muito que se lhe diga.

Portugalize.Me_Peixaria Centenaria fotos

(Texto: Raquel Félix/ Portugalize.Me/ Imagens: Peixaria Centenária)

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