Um Portugal mascarado de outros

6 Março, 2014 — Deixa um comentário

Caretos de Lazarim_Portugalize.me

Veneza tem um Carnaval único, específico, reconhecido e apreciado mundialmente. Suponho que cada veneziano tenha um particular orgulho e cuidado em preservar e manter os seus mascarados carnavalescos como tal. Nunca visitei Veneza mas, a partir do que leio, sinto que os venezianos percebem o valor da sua secular tradição e entendem que esta festividade, em particular, confere uma aura muito singular à sua terra, ao seu país, às suas gentes vincando características, afirmando uma identidade, preservando raízes.

Olho para o Carnaval de Veneza de longe, tiro-lhe o chapéu e bato-lhe palmas pela forma como tem conseguido manter o “seu Carnaval” sem necessidade de o desvirtuar.

Olho de perto para os nossos Carnavais, ou melhor, os nossos Entrudos e, vejo-lhes diversidade, riqueza, distinção. Cada pedaço de terra no nosso país tem o seu Entrudo, a sua forma manifesta de brincar e de expurgar os demónios carnavalescos. Assumem várias formas (desde um careto a um cabeçudo), vários rituais (a dança dos cús, a queima do gato, entrudo dos compadres, as danças com os folclores, a confecção do butelo…). Em Portugal não há só um Carnaval, ele multiplica-se, desdobra-se em mil (a diversidade é uma característica muito nossa).

Infelizmente, a diversidade quando não preservada e devidamente valorizada, corre o risco de se perder e de se tornar numa coisa homogénea, adulterada e massificada. O Carnaval “abrasileirado” tomou conta das ruas, a influência do samba entrou-nos porta adentro. Os carros alegóricos com escolas de samba a desfilar são o prato do dia de um Carnaval português. As plumas, as lantejoulas brilham mais que os fatos coloridos de lã dos caretos de Lazarim.

Olho de perto os nossos Carnavais, desvirtuados por nós próprios (não sei se por vergonha ou se por fascínio doentio de uma outra cultura), olho de perto mas de esguelha e rio-me, rio-me do ridículo, do absurdo de querermos à força ser uma coisa que não somos. Somos ao contrário, parece que andamos às avessas, num desencontro constante de nós, da nossa cultura, das nossas raízes e tradições! Andamos demasiadas vezes ao contrário e, em vez de fazermos das tripas coração, transformamos o coração em tripas e despejamos para um bacio as riquezas da nossa “alma”.

Parece que Portugal não gosta da sua própria pele, vive um Carnaval eterno mascarando-se de “outros” 365 dias por ano. 

Careto de Podence_Portugalize.Me

(Texto: Raquel Félix/ Portugalize.Me/ Fotos: Rede Ibérica da Máscara)

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