Festivais há muitos

25 Abril, 2014 — Deixa um comentário

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Nesta semana cheia de efemérides, também olhei para trás para ver como era o panorama de festivais de música antes e depois do 25 de Abril e, de certa forma, em que medida a chegada da democracia também teve as suas repercussões na música.

Fora as considerações ligadas à censura e ao estado de ditadura em que vivíamos (que deu origem à mais genial geração de compositores portugueses de que há memória), os nossos anos 70 até reflectiram à nossa maneira o que se estava a passar lá fora. Se antes, apenas existiam em Portugal grandes eventos ligados ao fado, essa canção que demorou tempo a afastar do capote a pesada herança do regime, no início dos anos 70, mais propriamente em 1971, lançou-se a semente para o que viria a ser um dos países europeus com mais festivais de música por metro quadrado.

Foi em 1971 que se realizaram pela primeira vez o Cascais Jazz Festival (curiosamente por um fadista, João Braga, ao lado de Luís Villas-Boas) e, claro, o Festival de Vilar de Mouros. Por Cascais passaram os subversivos Miles Davis, Thelonious Monk e Dizzy Gillespie e, claro, o controverso gesto do baixista de Ornette Coleman, Charlie Haden, que dedicou ‘Song for Che’ aos movimentos libertários de Angola e Moçambique em plena guerra colonial. O festival podia ter-se ressentido, mas não. Manteve-se firme, depois com menos fulgor já para o final, até 1988.

Já em Vilar de Mouros, tivemos José Cid e o Quartet 1111, rodeados de outros artistas portugueses que preenchessem a quota de bom comportamento e depois um novíssimo Elton John e os Manfred Man. Foi divulgado há pouco tempo um relatório da PIDE sobre este festival, onde se podem ler observações como “Houve gritos de Angola é… (qualquer coisa) durante a actuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg)”, ou “toda aquela multidão de famintos, sem recursos para adquirir géneros alimentícios indispensáveis, como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, se lançou sobre as hortas próximas colhendo batatas e outros produtos hortícolas”.

Vilar de Mouros voltaria apenas em 1982, 8 anos depois da revolução que nos trouxe de volta Zeca Afonso e José Mário Branco e deu voz a tantos outros. Depois, como se sabe, foi intermitente com edições espalhadas pelos anos 90 (96 e 99), tendo sido regular entre 2000 e 2006.

E é com o festival minhoto que entramos nos anos 90, que foi a década do boom do festival em Portugal. Paredes de Coura (1993), Super Bock Super Rock (95), Sudoeste e Boom Festival, em 1997 e o Marés Vivas em 1999. Todos estes continuam a existir, tendo-se juntado em 2007 o Optimus Alive, o Rock In Rio em 2004 e o Optimus Primavera Sound em 2012. Estes são os ‘grandes’ festivais nacionais, tendo conseguido entre eles trazer ao nosso país os grandes nomes da música mundial e servido com sucesso o apetite cada vez maior dos portugueses pela música ao vivo.

Do lado da audiência, também foi claro a mudança com a queda do regime e, sobretudo, com os tais anos 80/90 de entrada de dinheiros europeus e de abastança interna. O consumo alterou-se e os jovens puderam ser jovens até mais tarde, livres da pressão que oprimiu os pais, desejosos de darem aos filhos o que eles próprios não tiveram.

Não deixa de ser curioso notar que este crescimento dos festivais (que tem decaído nos últimos dois anos), coincide com a queda a pique do consumo de discos e da compra de música. É claro que a chamada pirataria favorece a música ao vivo, porque um público com maior acesso é um público mais informado e interessado. Fica claro que o consumidor prefere pagar a centena de euros de passe do festival do que comprar o equivalente em CDs dos grupos que gosta. Até porque a documentação no Facebook ou Instagram da presença num festival é mais glamorosa do que a da audição de um disco.

Com tudo isto, gerou-se aqui um dos mais rentáveis negócios em Portugal e também um bom embaixador do nosso país para os estrangeiros. Agora só falta terem mais música portuguesa, mas isso já é assunto para outro dia.

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(Texto: Rita Tristany Barregão para o Portugalize.Me)

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