Uma espécie de ode ao comércio tradicional

11 Janeiro, 2015 — Deixa um comentário

Comercio Tradicional_Portugalize.Me

Dedico o texto de hoje ao Comércio Tradicional, que é como quem diz, aos meus pais, que há anos se levantam pela madrugada dos dias para manter o supermercado de uma pequena e longínqua terra do interior norte a funcionar, a todo o gás.

O peixe fresco do Sr. Alcides chega cedinho, pela fresca. Todos os dias, excepto às segundas. O despertador toca pela 1h e lá vai Alcides escolher o melhor para os seus nobres fregueses. Leva uns quantos na cabeça e outros tantos no coração que isto de escolher peixe tem tanto de ciência como de intuição, mas daquela que se trabalha por anos e anos a fio (e já são tantos não é verdade meu pai).

Depois de feita a selecção, robalos, linguados, garoupas, pescada, salmão, polvo fresco, atum, chicharros, tamboril, fanecas… entram supermercado adentro e aterram na bancada, e em cama de gelo esperam pacientemente que as portam abram para que um a um possam ser adoptados por mais um freguês.

Alcides regressa a casa para mais um par de horas de sono até que o despertador o faz levantar mais uma vez. E lá vão Alcides e Fátima juntos em correria, Rua Direita abaixo para o abrir de portas oficial. O pão fresco chega, a bancada do peixe põe-se a preceito, os telefonemas começam e grita a Fátima para o fundo do corredor: “Alcides guarda uma pescada para a senhora fulana… ó Elisabete arranje-a bem arranjadinha, tem de ficar bem arrepiada…”. E retoma a Fátima o telefonema: “Mas ó Dona fulana, se é para cozer deve guarda-la um dia para ficar riginha!”.

DSC02290

E Fátima desliga o telefone e começa a dança pelo supermercado com um sorriso rasgado, de orelha a orelha. É assim, já que ela nasceu com os ditos bichos carpinteiros porque não sabe estar quieta. O Fátima & Filhas lá de Pinhel (aka supermercado dos meus pais) é comércio tradicional que ainda resiste às grandes e impessoais superfícies… e persiste. Os preços são bons, a variedade é a que o freguês quiser porque se não houver a malta arranja!

E também há a entrega ao domicílio, que é pretexto adicional para se dizer mais um “olá, como está”, um bom dia, boa tarde e até um boa noite ao sicrano, à beltrana.

Os queijos portugueses, os enchidos da região, as frutas, os legumes, os bolinhos, o mel do Abel, os vinhos ali da zona, o pão estaladiço pela manhã… é delicioso andar tranquila e calmamente pelos corredores, sem confusão e com tempo para apreciar produtos que se compram com um bónus adicional de dedicação e simpatia.

DSC02291

(Texto e imagens: Raquel Félix – Portugalize.Me)

Não há comentários

Sê o primeiros a começar uma conversa

Deixe uma resposta

Text formatting is available via select HTML.

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong> 

*