O homem que guardava mundos no coração

29 Março, 2015 — Deixa um comentário

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Amadeu Ferreira foi um homem de PALAVRA.

Foi um dos maiores divulgadores do mirandês porque a palavra era a sua forma major de expressão e o norte transmontano o seu mundo, a sua referência mais profunda. Escritor, tradutor e estudioso da cultura mirandesa, tirou da extinção uma língua histórica, parte da identidade do nosso país.

Protegeu-a até ao seu fim…

O trabalho de Amadeu Ferreira continua, porque um homem que guardava mundos no coração só pode deixar um grande legado para o futuro de um país. E Amadeu deixou…

Chegou-me às mãos um livro com textos de Amadeu Ferreira e fotografias de Luís Borges… NORTEANDO.

“Dues personas, dues bidas, dues giraçones, dous caráteles, due paixones, dous caminos, dues ferramientas… disseram-lhes que era para se fazerem de trôpegos e fingir que tropeçavam um no outro. Eles fingiram.” E tropeçaram… e muito bem. Em imagens e palavras escritas, umas vezes em português, outras vezes em mirandês, contando os mundos que o Amadeu guardava no coração e que Luís Borges captou em imagens.

E norteando lá foram contando assim…

“isso que bebeis não é água, não, são mundos guardados no meu coração”… escreve assim Amadeu Ferreira sobre o debruçar de uma cabra no chafariz… e escreve-lhe mais porque o Amadeu sempre foi de escrever cartas de amor à natureza e a todos os seres que compõem a paisagem do seu norte transmontano.

“ver o que não se vê”… foi tarefa, compromisso de Amadeu… dar aos homens a terra em poemas, em escrita, em arte falada, fosse em português ou mirandês, língua que ele tão bem soube preservar, trazia-a junto ao coração…

“técnicas de aproximação a outros mundos”… parecem distantes os mundos de que Amadeu nos fala e que Luís Borges interpreta em imagens… parecem distantes os mundos..

“as pessoas gostam de falar”… é verdade Amadeu, elas gostam de falar e a tradição oral é prova disso, prova de que o tempo não corrompeu o ditado, o pregão, o sabor do dizer alto… mas isso perde-se se as pessoas se afastarem dos seus gostos mais naturais… a vida é tão estranha Amadeu, tão estranha que eu por vezes já nem sei como fazer parte dela sem ter de me corromper… corrompemos com tanta facilidade a essência do nosso país…

“o varredor de lembranças”… parece que tem vindo a instalar,-se dentro de nós, uma espécie de varredor de lembranças caro Amadeu. Não temos de varrer a história para continuarmos a progredir, a avançar. O futuro fica coxo sem histórias, sem as vidas passadas… vou mandar o meu varredor de lembranças embora e vou pedir aos meus amigos que o façam também. O que achas Amadeu?

“vê lá não me deixes ficar mal”… não sei Amadeu… olha! Vou tentar “um ritual para um tempo de renascer” ou usar “a arte de fazer milagres”… mandar embora o varredor de lembranças pode não ser suficiente…

“apenas gratidão: mote para uma alegria”… todos te devemos isso Amadeu, não só os transmontanos ou os poucos que ainda falam o mirandês, mas todos meu caro, todos sem exceção, mesmo os que nunca ouviram falar de ti! Pessoas como tu ajudam-nos a SER e a TER uma identidade diferenciada, vincada, viva… “assim aprendemos a ir além de nós”… e descobrimos que “é da natureza que nós somos”… também somos deste lugar.

Meu caro Amadeu, tu és “um espanto que não tem fim”… obrigada…

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(Texto: Raquel Félix – Portugalize.Me)

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