Lavar de roupa, lavar de alma

17 Maio, 2015 — Deixa um comentário

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Aviso-vos de que não cheguei a qualquer tipo de acordo em relação à nova ortografia. Manterei o tom e a escrita da antiga forma de falar e de escrever. Passado o aviso, regresso às palavras…

Se há povo que já lavou no rio, vezes sem conta, esse povo é sem dúvida o português. Se a música e os filmes lhe imortalizaram tamanha tarefa, outras coisas existem que lhe fazem perdurar o acto quase que melancólico do lavar da roupa em público.

Qual lavandaria comunitária, de partilha que dá azo a conversas e a troca de olhares, sejam de esguelha, sejam directos. Numa lavandaria pública lava-se mais do que roupa. Lavam-se conversas vãs, soltas, próximas, lava-se a alma das coisas ruins da vida… almas.

Apesar do silêncio nocturno, o lavadouro faz ecoar as falas do dia passado, das Ti’s e dos Ti’s bairristas que não conseguiram lavar tudo num dia: “Amanhã há mais que já tenho as cruzes inundadas!”. E a roupa ali fica, queda e murcha a aguardar a vez do seu banho, do torce para aqui e para ali, do sacudir das águas finais: “É para ficar mais esticadinha.”

A roupa dorme, o bairro também.

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O acto de lavar tráz-me memórias vivas, risonhas.

Recordo-me claramente da minha mãe a lavar cobertores na ribeira das cabras em Pinhel. Era uma espécie de evento sagrado para mim e para a minha irmã. Tão importante como ir para a praia! E olhem que isto de ir para a praia, para um par de gaiatas do interior era um feito igualável à ida do primeiro homem à lua!

Enquanto a minha mãe lavava os enormes e felpudos cobertores, o meu pai dormia a sesta num amontoado de mantas encostado ao nosso piquenique (não fosse ele fugir). O cenário era de total liberdade e, depois de pedida a devida autorização, eu a minha irmã praticava-mos o jogo do “deixa fugir o chinelo”. Nada mais era do que largar os chinelos de borracha pela corrente da ribeira fora e nadar à cão, o mais depressa possível até os alcançarmos.

É certo que a ecologia desses tempos tinha desafios diferentes, desconhecidos até (perdoe-nos a natureza por tudo isso que agora a coisa é mais consciente) mas, mesmo assim, sabia bem, e a sensação era mais de relação com a ribeira, a sombras das árvores, dos besouros que nos subiam pelas mãos, das rãs que fugiam de nós, do que de dano.

Lavar em público soa bem. Tenho gostosas saudades desses tempos ao ar livre, de mexer na água, de ajudar a torcer os enormes cobertores de lã! Um destes dias, talvez me encontrem num lavadouro público a recordar velhos tempos e a lavar almas com dois dedos de conversa.

Soa bem, sem dúvida que soa bem!

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(Texto e imagens: Raquel Félix)

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