… eu conto-te como é o meu Portugal

21 Junho, 2015 — Deixa um comentário

Chieira – chi.ei.ra – [ˈʃjɐjrɐ] – nome feminino – 2. popular vaidade

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Andar atrás de livros como perdigueiro atrás de caça, não é só encontrar o “bicho” lê-lo e ficar com o gosto de tarefa cumprida. Questionar é preciso, e sim, eis aqui a apologia da leitura enquanto factor basilar na formação individual, aprender a perguntar, e aqui, pergunto para e por mim.

Um pouco de contexto antes de mais. Andava já há um ano atrás de uma edição peculiar, de uma colecção de guias da Seuil, a Petite Planète. Criada por Chris Marker esta colecção foi disruptiva pela sua inovação, traço que Marker insistia em deixar em todo o folio que tocava. O propósito aqui era afastar-se de toda a ideia convencional de guia-panfleto ou guia manual de história que havia no mercado, e aproximar-se não só de um mais vasto público, mas fazê-lo de uma forma à qual poderíamos chamar “vamos ali tomar um café que eu conto-te como é o meu Portugal”. Em 1967 foi isso que aconteceu pelas mãos de um colaborador próximo de Marker, Franz Villier.

foto 1

Foi esta a imagem que vi, foi através dela que tomei conhecimento dessa colecção e da obra de Marker, e foi ela também que me arrepiou os pêlos da nuca em modo, “tenho de encontrar isto”. Começa logo por humanizar o objecto-guia, por anular as paisagens da capa e pôr gente como imagem principal de um país, e desta feita, as capas são apenas e só com fotos de mulheres, todas elas com traços claros e distintivos, é só olhar para as sobrancelhas do exemplo português – com orgulho o digo.

Passados uns meses encontrei um exemplar num semi-quase-alfarrabista ali para os lados da Rua Garrett que tinha bastantes números da colecção, incluindo o português que estava turisticamente inflacionado (que é como quem diz, bastante) para aquilo que queria gastar. Procurei outras fontes e online consegui encontrar um belo exemplar (o fotografado) e qual não é o meu espanto, que descubro que existe uma segunda versão do guia dedicado a Portugal, impressa em 1979. A bem da verdade histórica havia que fazer reflectir a importância da Revolução, já não éramos o país do bafio e do lenço na cabeça. Tínhamos agora o traço de sociedade ocidental a combinar com o moreno-mediterrâneo-atlântico, e era assim que éramos portugueses, isto em meia dúzia de traços largos.

foto 2

Folhear estas duas edições em simultâneo, é não só ver uma actualização histórica, mas um frisar da revolução em si e a algumas das consequências imediatas que teve. Desaparecem os Salazares e aparecem os soldados do MFA, os políticos do PREC também andam por lá. Diminui o espaço dado às cenas rurais e mostra-se mais a cidade. Num dos capítulos que é repetido de uma edição para a outra “Alentejo ma non tropo” em 79 permitem-se a citar Urbano Tavares Rodrigues, e para quem sabe, reconhece que existe aqui um salto semântico, do tamanho de uma planície, dizendo eu pouco. Em 79 acrescentam-se também ao lado da capa das Cartas Portuguesas as fotos das “3 Marias” (com o ar calmo que só a razão dá), sem se explicar porque aparecem ali ao lado da Soror Mariana , fica o rasto para quem o quiser seguir.

Mas para mim, o melhor guia será sempre o conjunto dos dois e as questões que ambos me provocam. Este olhar de um outro sobre nós, que resume e traduz a nossa identidade numa dezena de páginas é algo de simultaneamente assustador e curioso. O que revelamos, ou o que revelávamos de nós? Será o guia de 1967 menos verdadeiro por ter reflectido a imagem que o Estado Novo propagandeava, do pobrete mas alegrete, ou foi mais verdadeiro por isso mesmo? A versão de 1979, que apresenta ainda quente a Revolução e que multiplica as referências políticas, não apaga um pouco a realidade de lugares onde a Revolução ainda não tinha chegado? A distância histórica torna-me também num outro-outro? Não posso eu agora dizer que o que está escrito e fotografado é o meu Portugal, por o não ter vivido ou experienciado assim? Ou arreiga-me sempre o direito de o dizer apesar do ano em que nasci? Que eu de alguma forma sou não só o lenço na cabeça, como também o cabelo curto, a emancipação e a liberdade? E será que é tão importante assim ter as respostas para isto?

3 e 4.001

Anda daí tomar um café que eu digo-te como me é Portugal.

Dêem-me as imagens do 1º de Maio de 74 que eu choro com saudade de não ter lá estado, ou mostrem-me um peitilho minhoto engalanado que eu reconheço a filigrana como se fosse o cabelo da minha mãe. Deixem-me ouvir Ornatos, Fausto, Zeca, A Naifa e eu volto a ser criança protegida no colo, ou tapem-me os olhos e dêem-me um bragal para as mãos que lhe leio os nós do ponto como se fosse o Livro do Desassossego em braile. Quero desfazer a tiborna contra o céu da boca e cheirar o gargalo do tinta-roriz sem pensar se sou mais ou menos por ser agora. Não sou, sinto, cheia de orgulho e vaidade.

foto 5

(Texto: Samanta Velho para o Portugalize.Me)

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