Façamos o povo cantar

9 Outubro, 2016 — Deixa um comentário

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Não hesitei em comprar o livro assim que dei de caras com ele. Foi amor à segunda vista, porque a primeira foi arrebatada pela magnífica série documental do Tiago Pereira com o mesmo nome, “O Povo Que Ainda Canta“, que foi para o ar na RTP2 de janeiro a julho de 2015.

Corri para casa! Abri o livro, desfolhei-o, cheirei-o (pois cheiro tudo). O livro começa com uma breve nota do editor onde, de forma ténue, refere o nome da minha terra mãe, Pinhel (lugar de começos). Se Michel Giacometti lançou a primeira pedra em “O Povo Que Canta”, Tiago Pereira construiu-lhe uma mansão em cima, graças à sua paixão e compulsão por gravar velhinhas que cantam de forma tremida mas destemida.

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Continuo… choro emocionada ao ler e imaginar cada histórias, cada pessoa, cada frase, cada imagem, cada som. Portugal tem um grau de profundidade inacreditavelmente puro e bonito. É pena ser tão desconhecido e menosprezado.

Deveria ser um episódio cheio de jovens e de esperança, mas não o é. Mostra uma das maiores tristezas do nosso país, a desertificação humana, a noção de que daqui a 10 ou 20 anos estas são terras de que não se sabe o futuro. Mas também mostra formas de cantar e dançar únicas, circunscritas àquele lugar. Houve momentos em que fui mesmo transportado para o centro da terra, para as raízes mais profundas, e comovi-me com a simplicidade com que tudo acontecia…

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De voz em voz, assim vão saindo os sons de Portugal, os que ninguém conhece. E lá vai Tiago, de microfones na mão, câmaras, tripés. Ele próprio é uma velhinha: “Gostava de gravar avós ao domicílio. Esta é a minha forma de estar na vida.” Cantar é forma de estar e de vencer muitas das dores da vida. O povo português fez da música alimento e alento.

O cante nasceu da fome, conta-me o José Rosa Valente. Lembra-me que me contaram um dia a história de uma mãe que respondeu à filha, cheia de fome, “Olha… canta!”. Esse cante é como um tremor de terra quando todos abrem a boca, um tsunami de alentejanos em uníssono.

Chego às páginas finais e embato contra um mural de gentes, “A Cartografia dos Afectos”, porque é disso que se trata, é disso que nos fala o Tiago, do que move as pessoas quando cantam e tocam. As pessoas, sempre as pessoas.

Texto e Vídeo: Raquel Félix – Portugalize.Me // Fotografias e Imagem: O Povo Que Ainda Canta

 

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