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Por circunstâncias relacionadas com o meu trabalho, hoje reli, depois de muito tempo, o nome da Rua do Ouro.

Estou distante e não contacto todos os dias com a toponímia lisboeta. Talvez por isso, a indiferença causada pelo hábito fez-se espanto: “Rua do Ouro”. Saboreei o nome, com o seu carácter descritivo.

Lembrei-me então da toponímia da Cidade do Panamá, desprovida de qualquer imaginação. A grelha é composta por avenidas que correm – vagamente! – numa direcção. Têm nome de letra, por exemplo, ou então, simplesmente, o seu ordinal. Temos portanto a avenida 3B, precedida pela 2A e seguida da 3C. A Segunda Avenida C Norte depois passa a ser Segunda A Norte. As avenidas são cortadas por ruas, também numeradas. Mas em alguns pontos, existem repetições e “bis”. Se de praticabilidade se tratava, o plano saiu gorado, pois a confusão é grande. Mais irónico ainda é que tenham decidido numerado as ruas, mas não as portas…

Sei que há muitas cidades que gozam de toponímia alfa-numérica, sendo ela muito comum nas relativamente recentes urbes do continente americano. Veja-se Nova Iorque e a sua Manhattan, onde ninguém se perde devido à numeração da quase totalidade dos seus arruamentos. Prático é, sim. Mas imaginativo? Nem por isso.

Buenos Aires, cidade latino-americana onde vivi e que também não se rege por números, deu principalmente nome de lugares e de pessoas às suas ruas. Por ser uma cidade relativamente recente – e gigantesca, com muito arruamento a identificar –  temos uma planta maioritariamente ortogonal, onde não faltam as ruas Nicarágua, Costa Rica, Uruguai e Montevideu; e também Perón, Umberto I e outros que tais.

Excepção no grande continente americano são os arruamentos das cidades brasileiras – não sei se todas, claro está, mas pelo menos algumas. Herdeiros da nossa tradição portuguesa, que identifica as ruas por referentes históricos vários, não falta no Rio de Janeiro a Rua da Alfândega, a do Ouvidor, a de Luiz de Camões ou a da Conceição, por exemplo. E ao encontrar o Ouvidor,  rapidamente fui do Rio até Macau, onde vivi na Avenida Ouvidor Arriaga. Mais tarde mudámos para a Avenida da Praia Grande – o nome diz tudo.

Em Lisboa, sobretudo nos bairros mais antigos, temos as ruas das profissões: a dos Fanqueiros (vendedores de fazenda), a dos Sapateiros. Também há uma lisboeta rua da Conceição, conhecida como dos Retroseiros, identificando o grupo profissional que lá se instalou. Temos a Rua da Alfândega, perto do porto e do Terreiro do Paço (o chão em frente ao palácio), a Rua do Ouro, que originou toda esta elucubração e que, juntamente com a da Prata, ladeia a Rua Augusta, de maior importância.

Em bairros mais recentes temos nomes religiosos, como Santa Marta ou São José; e nos bairros modernos predominam nomes de figuras da nossa história local e nacional.

Gosto desta nossa tradição: os nomes das ruas revelam um pouco da nossa história e das nossas raízes. Têm uma razão para se chamar assim – e é assim que são conhecidas. Fazem parte da nossa herança cultural e da nossa identificação com o local. Imaginem que, em vez de Avenida da Liberdade tínhamos “Avenida Terceira C”? Lá ter nome, tinha, mas não seria a mesma coisa…

(Texto: Ana Isabel Ramos)