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A mesa é lugar de conversa que surge com naturalidade. Fala-se dos temas da hora, do dia e, com algum descuido, o tempo passa ligeiro, como se tivesse asas. Olhamos para o relógio e lá estão elas, as horas da madrugada!

E com as horas, vieram os temas do país…

Tenho a sensação de que Portugal regrediu aos anos 80! Parece que andámos para trás e estamos mais próximos dos tempos dos nosso pais… a classe média em Portugal ganha entre 600 e 1000 euros. É isto uma classe média?!

Navegamos pelos dias como se navegássemos pela internet, lendo as gordas, deixando pouco espaço para temas aprofundados de tão resguardados que estamos pelo pouco tempo que dizemos ter nas quase 24 horas de um ciclo circadiano. As coisas passam como que desapercebidas, sem merecerem a devia atenção. Focamo-nos pouco, andamos cansados, por vezes exaustos por ganhar uns trocos para a casa, o carro, para o pacote turístico do resort de um raio que nos parta…

Somos um país com uma classe média pobre mas, mesmo assim, gostamos de carros novos (a venda de ligeiros de passageiros cresceu 26,3% no primeiro trimestre de 2016, segundo dados ACAP – Associação Automóvel de Portugal). Não sei se foi a classe média que os comprou… mesmo não tendo sido, é estranho, soa a contracenso, a um estado de “nevoeiro” que me fez lembrar o meu caro José Gil (mais uma vez, ou vezes demais).

O português pode mergulhar mais ou menos no nevoeiro, mas este é o seu meio ambiente. O entorpecimento da consciência tem consequências imediatas no pensamento que, por seu turno, entorpece sem remorsos. Por isso se diz que se pensa pouco em Portugal. Há como que uma ligeira estupidez reinante, um vapor de burguesismo que se cola à pele.

Portugal, Hoje – O Medo de Existir // José Gil

A vida tem andado tão cheia de coisas e coisinhas que quase perdia o sentido do gosto a uma boa noitada, onde a conversa entre amigos enche em grande medida os cantos à sala lá de casa. Sabe bem fugir às conversas emparedadas do dia a dia, centradas demasiadas vezes num dia de trabalho, na tarefa, no fazer. Fico com a sensação de ausência, sinto-me arredada, distanciada do verdadeiro contexto da vida. As conversas aproximam-me, focam-me, dão-me mundo e afastam-me de supostos nevoeiros.

Sentar-me-ei mais vezes à mesa de amigos porque conversar é preciso!


Texto: Raquel Félix – Portugalize.Me

Fotografia: Eduardo Gageiro (Raul Solnado – 1966)