Claudia-Pires-1

O último ano do Tua… a última vindima, a última colheita, a última caminhada, a última descida do rio.

É-me difícil compreender a dimensão do último, sobretudo quando não existe uma razão plausível, razoável para tal desfecho. Portugal é um país de dimensão muito pequena onde cada pedaço de terra, água, ar deveria ter um valor ainda maior. Não podemos dar-nos ao luxo de arruinar um único milímetro de espaço que seja… como vos disse, não compreendo… não compreendo a insana certeza de quem “explora” o nosso país e faz dele o seu negócio quando deveria fazer dele a sua casa. Esta facilidade, esta coisa despojada de quem não tem nada a perder… o Tua vai perder-se, o Tua vai morrer. Ouve isto com atenção, diz alto, repete quantas vezes forem necessárias… o Tua vai perder-se, o Tua vai morrer! Não sentes nada? Não fazes nada? O Tua vai perder-se, o Tua vai morrer!

Prof.-Anibal-Goncalves-1

Olha, eu choro… sabes, é que estas coisas fazem-me mal ao coração… o que parecia ser impossível está a tornar-se fácil demais e isto é triste, muito triste porque me leva a pensar que aqui, na minha “casa”, quem tem dinheiro e poder leva a sua avante e o facto desta região ser classificada como Património Mundial da UNESCO não lhe basta, não tem peso de qualquer natureza.

O Tua vai perder-se, o Tua vai morrer… o Tua vai perder-se, o Tua vai morrer…

Duarte-Belo-7

No início da construção, a UNESCO identificou um conflito entre a existência da barragem e a classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial mas, em 2012, considerou que o projeto era compatível, desde que uma série de requisitos fossem seguidos. Acontece que não foram.”

“O único objetivo desta barragem é a produção de energia elétrica, alegadamente para diminuir a dependência externa energética do país. Contudo, apenas irá contribuir com 0,1% do total nacional da energia consumida, correspondente a 0,5% da eletricidade. Será fortemente subsidiada, um fardo inútil sobre os consumidores e contribuintes. Alternativas como a eficiência energética, o reforço de potência de barragens já existentes e a produção de energia solar, entre outras, garantem uma relação custo-eficácia muito melhor e, ao contrário das grandes barragens, benefícios ambientais claros.”

O que é único cria valor. Destruir o vale do Tua e a sua linha de comboio diminui substancialmente a capacidade da região para se desenvolver de forma sustentável, nas dimensões social, ambiental e económica. Vai abrir uma ferida no coração do Alto Douro Vinhateiro, que é muito mais do que a origem do célebre Vinho do Porto. É parte de um património único em que Humanidade se casou com a Natureza de forma harmoniosa.”


Texto: Raquel Félix – Portugalize.Me/ Imagens e vídeo: O último ano do Tua