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Identidades

27 Agosto, 2012 — Deixa um comentário

(bandeira nacional em La Parva, Andes chilenos)

Em plena estação de esqui de “La Parva”, no lado chileno da cordilheira dos Andes, está um mastro com uma imensa bandeira. Nos capacetes dos esquiadores, bandeiras; nas lojas de souvenirs, emblemas com os símbolos nacionais. Da mesma forma, no país vizinho se encontram bandeiras e estandartes um pouco por todo o lado, desde restaurantes e lojas até mesmo às ruas.

Quando vivia em Buenos Aires, achava realmente estranha essa ubiquidade da bandeira, sobretudo em comparação com a nossa realidade portuguesa: bandeiras nacionais só em edifícios institucionais; o fenómeno da bandeira em massa – algo efémero – deu-se com o campeonato europeu de futebol em 2004.

Comentei o meu espanto com uma amiga argentina, historiadora, que me explicou a razão de tal diferença: a Argentina é um país jovem composto por vagas migratórias muito recentes, com pessoas de proveniências, culturas e línguas muito diferentes. Como tal, a bandeira estava presente com o objectivo de dar a esses imigrantes um símbolo nacional em comum. Muitas dessas pessoas, sem falar uma palavra de espanhol, refugiaram-se – literal e figurativamente – sob as cores do estandarte. Já o nosso país, com as mesmas fronteiras há oito séculos e saído de uma ditadura onde se cultivou uma firme identidade nacional, reagiu no sentido oposto, de ir buscar símbolos não conotados com a nação.

Fiquei a pensar no assunto. É verdade que não nos falta uma identidade nacional; o que nos falta é a paixão pelo nosso país, paixão essa que muitas vezes só é descoberta quando estamos longe. Acredito que esta seja mais uma das muitas – e pesadas – heranças da ditadura, em que se servia aos portugueses uma imagem esquizofrénica de um país superior, mas ao mesmo tempo pobre e pequeno.

Que imagem queremos ter hoje de nós próprios? Queremos continuar a arrastar o paradigma anterior, que nos pesa e limita nas nossas ambições, ou criar um novo? Porque, por muito que nos repitam que somos pequenos e pobres, nós somos o que nós fizermos por ser.

(Texto e imagem: Ana Isabel Ramos)