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Não me recordo de quantas vezes aquele homem nos batia à porta. Se todas as semanas ou se apenas uma vez por cada mês. Recordo-me bem da cara dele e do nome. Sr. Jacinto, o cobrador da água. Falo-vos de outros tempos. De há uns 30 ou 32 anos atrás em que a água era cobrada porta a porta (na minha terra era assim).

Eu era muito pequena (de idade e de tamanho) e frequentava a escola primária de Pinhel. Este facto é relevante apenas para uma parte do que vos conto. Por causa da mala onde o Sr. Jacinto transportava os longos recibos da cobrança da água. Era de pele, cor camel e fascinava-me. Imaginei-a muitas vezes nas minhas mãos, com os meus livros e cadernos a caminho da escola. Fim de facto.

Antes não se colavam papéis na porta. Tocava-se à porta. Chamava a minha mãe (quem costumava estar por casa)… “Mãeeeeee, é o Sr. da águaaaaa!” O Sr. Jacinto procurava o recibo do número 11 da Rua Dr. Dinis da Fonseca, rasgava-o cuidadosamente e recebia o valor da cobrança. Contas saldadas, despedia-se e passava à porta seguinte.

E assim foi durante anos, até que os cobradores da água e da luz deixaram de aparecer. Deixaram de existir. Agora, temos os “afixadores” de leituras para que mais tarde se possa fazer a cobrança digital. E já não precisam de nos bater à porta.

Apesar da digitalização, o processo de cobrança mantém um lado manual. A forma como cada inquilino afixa os post its no vidro da porta do prédio faz-me pensar muito no Sr. Jacinto. Aliás, todos os que colam post its têm um pouco de Jacinto dentro de si… talvez uma homenagem rebuscada de minha parte aos Jacintos desaparecidos…

Não consigo deixar de partilhar um certo carinho por esta pratica, por esta coisa tão bairrista, tão da vizinhança e que põe a descoberto os consumos pessoais da água, da luz e do gás. Desprendimento, despreocupação, entrega. Caricato, doce, bizarro, humano, engraçado, próximo.

De cada vez que virem estes maravilhosos papéis, lembrem-se do Sr. Jacinto, que tocava sempre duas vezes.

Texto e imagens: Raquel Félix – Portugalize.me