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Aproxima-se a chegada das férias em Portugal e a ansiedade aumenta. Como vai ser voltar a casa, depois de um ano? Ainda por cima, depois deste ano tão difícil?

Há dias conversava com uma amiga que viveu muitos anos no estrangeiro e voltou há um para Portugal. Contava-me que o panorama não era, de facto, o melhor, mas que familiares dela eram donos de um negócio e não conseguiam contratar portugueses. Entre desculpas e pretextos vários, os candidatos preferiam receber o subsídio de desemprego a ter de trabalhar.

Fiquei espantadíssima. Claro que sabia que antes desta crise uma pessoa podia ser muito mais selectiva na sua escolha laboral. Conhecia, também, casos de pessoas que trabalhavam exactamente o tempo suficiente para ficarem aptas a receber o dito subsídio, que o gozavam até ao fim e que só então voltavam a procurar novo emprego. Mas pensava – talvez ingenuamente – que a contracção na economia e a redução drástica das ofertas de trabalho tivessem mudado esta mentalidade.

A resposta não parece ser clara: se, por um lado, temos tantos novos micro-negócios, por outro continuamos a ter uma parte da força de trabalho ainda a usufruir abusivamente de instrumentos que existem para ajudar quem deles realmente necessita.

Voltamos, portanto, à velha história do peso do Estado social. Queremos um Estado social? Eu, honestamente, quero. Depois de cinco anos na América Latina, em estados vagamente sociais, vejo que poder recorrer a um hospital – ou seja, poder pagá-lo – pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Também sei que aqui, se for vítima de algum crime, tenho muito pouco apoio de parte das autoridades; terei até sorte se não me extorquirem dinheiro a mim, resultando duplamente lesada.

Mas como todas as moedas têm duas faces, vejo também que quem não tem a certeza de um Estado social a protegê-lo em caso de infortúnio esforça-se mais na procura das suas próprias soluções: toma iniciativas, arrisca-se em negócios, cria as suas próprias oportunidades de trabalho e poupa para a sua própria reforma. Isto é, tem um incentivo muito forte à iniciativa privada, porque a alternativa simplesmente não existe.

Onde está o equilíbrio entre estes dois extremos? Se calhar, em Portugal. Porque continuamos a ter acesso à saúde, à educação pública e à justiça – com todos os seus defeitos. E porque cada vez temos menos alternativas ao empreendedorismo.

(Texto: Ana Isabel Ramos/ Imagem: Rodrigo/ Expresso)