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Miguel Relvas já sai tarde deste governo desgovernado. Não sou uma apaixonada por política mas, de uma forma certamente distante, alimento simpatia ou antipatia pelas figuras políticas. Por Miguel Relvas, por acaso, é mais a última, acompanhada de um certo desprezo.

Já aqui falei sobre a sua licenciatura. Na altura, disse que quem perdia era ele. Para todos nós, que completámos legitimamente cursos superiores, o curso deve ter tido os seus momentos difíceis, outros bons. Um papel, sem a experiência do estudo, é algo vazio e sem correspondência a um património pessoal de vivências.

Não acho que um grau académico seja requisito para se ser governante, mas acredito que a honestidade o é. O ex-ministro não precisava de ser licenciado; precisava, sim, de não ter mentido sobre as suas habilitações. Obter um 18, como noticia o Público, numa cadeira em que nem sequer realizou um exame parece-me uma graçola de mau gosto. E o pior é: se mentiu sobre isto, sobre que mais mentiu? Sobre coisas que realmente nos interessam a nós, portugueses? Que dizer sobre a confiança que diz manter no projecto político actualmente em curso?

Recentemente regressada a Portugal, ouço os meus pares dizerem-me que estão desejosos por sair do país, que estão fartos de verem os seus impostos sistematicamente aumentados, os seus rendimentos sistematicamente cortados. Sentem, e com razão, que os esforços não são equitativos; sentem, portanto, que são atacados por todos os lados, sobretudo para tapar buracos financeiros que não cavaram.

Os meus pares não sabem, contudo, que noutros países também há governantes com segredos a esconder e que a vida lá fora não é o el dorado que estes senhores aqui nos fazem crer.

Este afastamento de Miguel Relvas, esta personagem arrogante que afirma sair por vontade própria, é um sinal demasiado débil para todos nós que desejamos apostar no nosso país. Já vem tarde e é pouco, muito pouco, para voltarmos a acreditar que o projecto do nosso primeiro-ministro é sério, transparente e equitativo e que no final de tudo estaremos melhor que antes.

Estamos todos muito fartos de mentiras, talvez mais até que da própria austeridade. A mentira tem hoje a perna cada vez mais curta e quem nos governa deveria saber que tudo, mas tudo vem ao de cima, demore mais ou menos tempo.

Haja decoro.

(Texto: Ana Isabel Ramos)