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Portugalize.Me_maos

Esta cidade é tão linda: a luz, o espaço, os azulejos, o Tejo. E também as pessoas, que por vezes lhe dão momentos de suprema beleza.

Frequentadora assídua de autocarros, tenho a sorte de viajar numa linha servida por um dos pequeninos.

Esta semana, ia eu sentada no autocarro para o atelier, quando olho pela janela e vejo um autocarro – da mesma linha, mas em sentido oposto –  parado em frente a uma passadeira. O condutor estava inclinado para a frente, apoiado no volante. Olhava com muita atenção para o grupo que atravessava a estrada: uma turma da escolinha mais próxima, meninas e meninos aí dos seus dois, três anos.

Fiquei encantada a olhar para aquele concentrado de fofura: pernocas a sobrarem de coletes reflectores, pareciam tirados de um desenho animado. O meu coração derreteu, claro, e só depois de se recompor um bocadinho consegui desviar o olhar: o motorista sorria, enternecido, inclinado sobre o volante de onde tinha um lugar privilegiado para observar o grupo. Enquanto isso, atrás do autocarro foi-se acumulando trânsito… insólito foi não se ouvir nem uma buzinadela.

Depois de assim preenchida a quota semanal de fofura, já não esperava ser surpreendida nesse mesmo dia, ao voltar para casa.

Contrariamente ao que é costume, o autocarro atrasou-se e, como tal, vinha atafulhado. Estávamos tão apertadinhos que a nossa única opção era mesmo conhecer intimamente quem connosco viajava.

Uma das passageiras, invisual, ia perguntando a quem estava perto em que ponto da carreira íamos. Numa das paragens entrou um mocito jovem, de mochila às costas, cheio de calor como é próprio da idade. Ficou de pé, junto à entrada e perto da senhora – não havia muito espaço.

Na minha leitura apressada e preconceituosa – é assim que o cérebro funciona, não é? Cataloga rapidamente a informação para nos ajudar a navegar o mundo – arrumei-o na secção “hashtag adolescente” e não liguei mais.

Chegámos então à paragem onde a senhora queria sair, que calha ficar em cima de um cruzamento. Ela pediu para descer; o moço, no caminho, ajudou-a a encontrar o degrau.

Até aqui, gentileza normal, não é? Mas a história continua: o rapaz, querendo ajudar a senhora, perguntou-lhe de que lado da estrada queria ficar; ao perceber que era no ponto diagonalmente oposto do cruzamento, e tendo em conta que aquelas eram duas artérias sem semáforo, prontificou-se para a ajudar a atravessar a estrada. Pediu ao motorista se fazia o favor de esperar por ele, enquanto ajudava a senhora, e o motorista, para meu espanto, acedeu.

Com a devida calma de quem acompanha uma pessoa com dificuldades, desceu do autocarro, levou a senhora até ao ponto que ela já conhecia e voltou a subir. O motorista fechou a porta, arrancou e eu notei que se me colava no rosto um enorme sorriso; olhei à volta e constatei não ser a única.

Um dia com dois episódios fofos no autocarro é um dia ganho. Constitui prova provada de que a humanidade, em geral, até é boa.

E vocês? Que provas têm de que a humanidade à vossa volta é boa, gentil, amável?

(Texto e imagem: Ana Isabel Ramos)