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Há 26 anos atrás, feitos ontem, chegámos pela primeira vez, de armas e bagagens, ao Oriente. O meu pai já estava em Macau e esses meses de distância foram preenchidos com telefonemas e cartas dentro de envelopes com selos de jetfoils. Era o tempo em que o indicativo internacional era 097, não 00. Pré-história, portanto.

Lembro-me da viagem de avião, com escalas na Suíça e no Paquistão, até Hong Kong. Lembro-me da primeira aterragem em Kai Tak: da janela, víamos mar a toda a volta, nada de asfalto. O arrepio no momento de pousar. O jetfoil até Macau.

Quando saímos, senti que podia agarrar o ar. O calor e a humidade tornavam-no palpável, difícil de inalar. Hoje olho para trás e pergunto-me como é que a minha mãe se orientou numa viagem intercontinental com três filhas a reboque, sem sequer falar inglês. Uma aventura.

A odisseia continuou nos anos seguintes com a difícil adaptação ao novo ambiente de pequena aldeia urbana, às culturas chinesa e macaense, às transformações observadas nos portugueses que lá viviam. A televisão em chinês, inglês e português e os desenhos animados que nada tinham que ver com os que os meus primos viam, em Portugal.

As cartas demoravam duas semanas entre o extremo ocidental da Europa e o extremo oriental da Ásia; hoje em dia, depois da experiência panamenha, agradeço a existência de serviço de correio em ambos os lugares. Aliás, que mal habituados estamos a receber e enviar correio sem nenhuma dificuldade – e ainda nos queixamos.

Os telefonemas marcados pelos apitos dos impulsos, que caíam com tanta abundância como a chuva tropical que lá conhecemos pela primeira vez. Calor e chuva, que combinação bizarra. Água pela cintura e a inutilidade do guarda-chuva: uma novidade.

Os odores, tão diferentes dos nossos. A combinação do rio das Pérolas, castanho de sedimentos, com os cheiros da manga, da carne e do peixe a secar e do incenso a queimar. O “capacete” das nuvens e os primeiros tufões da minha vida. Não ter amigos nem conhecer ninguém.

Esta foi a primeira de várias emigrações, e apesar de podermos pensar que as seguintes foram mais fáceis… não, não foram. Nunca são. A tecnologia moderna ajuda, mas a distância está sempre lá. Uma pessoa adapta-se a tudo, felizmente, e as diferenças suavizam-se com o tempo, mas quem muda de país de três em três anos merece toda a minha admiração.

Hoje, 26 anos depois da minha primeira emigração, agradeço as experiências vividas lá fora. Nesse dia de Agosto de 1987, tinha alguma noção de que a minha vida iria mudar, mas jamais poderia imaginar quanto. Graças à vida lá fora, hoje valorizo e gozo muito mais o meu regresso a Lisboa, à minha cidade e ao meu país.

(Texto: Ana Isabel Ramos | Imagem: Inês Marinho)