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No meio desta imensa crise, há fenómenos absolutamente curiosos. Aqui há dias entrei numa daquelas lojas perdidas no tempo. Em pleno centro de Lisboa, num primeiro andar de um edifício praticamente mais velho que o andar a pé, localiza-se uma loja de lãs daquelas à moda antiga, com lâmpadas fluorescentes no tecto e os anúncios escritos à mão.

Entrei e surpreendi-me por várias razões: a escolha dos fios para tricot e Arraiolos era ampla e as fibras muito variadas. Lá dentro, uma senhora tricotava a uma mesa e a outra, a pessoa que me atendeu – muito bem, por sinal – contava-me que em vez de notar uma contracção no negócio, notava exactamente o contrário. Começou então a dar-me exemplos de clientes vários, muitos deles jovens, a fazer coisas interessantes com os fios que vendia.

As histórias que a senhora me contou vieram confirmar a sensação que tenho de que esta crise e a consequente escassez de dinheiro têm tonificado o músculo selectivo dos consumidores e, paralelamente, intensificado um regresso às tradições e ao que é “nosso”. Quem compra fios para tricot sabe que não são baratos; ninguém tricota uma camisola por ser mais barata que comprá-la na loja. Por isso, a minha conclusão é que o consumidor compra menos, mas melhor.

Se formos apreciar o rácio da diversão por euro gasto, o tricot tem entrada directa para o topo da tabela. Senão vejamos: o novelo de cem gramas de bambú orgânico que comprei tem um preço que ronda os cinco euros; não sendo barato, é mais barato que um bilhete de cinema. Enquanto que a sessão dura duas horas, o tempo que demoro a tricotar um novelo, e o prazer que me dá cada minuto que passo a tricotar, é imenso. O novelo em si não é barato; mas a diversão que me traz por apenas cinco euros? Essa é imensa.

Ser selectivo nos produtos que adquirimos é muito importante, e ainda mais em tempo de escassez. Sou fã de procurar local e de boa qualidade. Por um lado, é ecologicamente mais sensato comprar produtos que não tiveram de viajar milhares de quilómetros; por outro, ao comprarmos localmente estimulamos a economia e colaboramos com os pequenos produtores, pessoas que arriscaram e que lutam, sem o apoio de uma grande estrutura comercial, para oferecer o melhor produto possível.

E os caríssimos leitores? De que forma são selectivos nas suas compras?

(Texto e imagem: Ana Isabel Ramos)