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À medida que avançávamos pela N379, perguntava a mim mesma se já teria ido ali alguma vez. A minha fiel boleia questionava-se sobre o mesmo. Talvez quando era mais pequena, com os pais, com uns tios ou uns primos? Não me lembro. Nenhuma de nós tinha certezas sobre a ida ao Cabo Espichel. Talvez fosse demasiado pequena, daí as falhas de memória. Na cabeça apenas guardava a imagem de um Farol sozinho numa elevada encosta marítima.

Chegámos e no imediato surpreendo-me ao (re)descobrir o misterioso Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel, também conhecido como Santuário de Nossa Senhora da Pedra Mua (séc. XVII). “Aquele lugar não me é estranho”, penso… “Lembro-me de ver qualquer coisa na TV sobre aquele sítio porque as imagens que me surgem coincidem”. Não esperava que fosse ali. E assim do nada, o Cabo já não era apenas aquela imagem isolada e solitária.

Circundamos o Santuário pela lateral direita ao encontro da antiga Casa da Ópera, outrora destinada à promoção de Teatro (1770), agora em ruínas. Mais à frente, alguém fez uma entrada numa das paredes laterais da antiga Casa. Alguém improvisou um quarto por ali, mas também esse foi abandonado ficando para trás uma boneca de plástico, um penico, um baú e uma cama de ferro. “Parece que deixou de haver vida por ali.” E a imagem de isolamento regressa à minha cabeça.

Cirandamos e avistamos uma pequena sombra a vir na nossa direcção. Com ela um miar. Quando surge ao sol, um ronronar e carícias nas pernas. Era um gato e aos poucos a vida foi surgindo por ali. O gato parecia que nos queria guiar, era uma espécie de gato/ cão ávido por nos mostrar qualquer coisa do seu interesse. E assim foi. Fomos com ele. Levou-nos por um atalho até à porta principal da Igreja do Santuário. A porta estava fechada, mas não tardou a abrir-se porque o intenso miar do Gato Espichel, assim o baptizamos, chamaram a atenção da fiel guardião da Igreja.

Uma igreja não muito grande, mas bem conservada e acolhedora. A guardiã mal se via. À sua volta postais, terços, imagens de santinhos e santinhas. Sentada atrás duma mesa fazia o seu tricô e ouvia a sua música com uns auriculares presos apenas a uma das orelhas. Despedimo-nos dela e fomos novamente ao encontro do Gato Espichel que nos esperava cá fora com mais miares e ronrons. Fizemos festas ao Espichel e retomamos o nosso caminho.

Percorremos as arcadas das hospedarias. O silêncio era intenso, mas foi-se abrindo. Ao fundo um grupo de homens do exército esperava por outro grupo. Uns sentados, outros em pé. O dia era de sol. Deixamos de ver a sombra do Gato Espichel, deixamos de ouvir o seu ronronar para passarmos a ouvir um rebanho de ovelhas. Afinal por ali há muita vida e o que começou por ser um Cabo isolado, sozinho, revelou-se num Cabo companheiro, animado, cheio de vida!

Portugal tem recantos cheios de encantos.

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(Texto e imagens: Raquel Félix/ Portugalize.Me)