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Emociono-me quando encontro pessoas verdadeiramente apaixonadas por Portugal, que lhe descobrem uma riqueza profunda, infelizmente desconhecida e quase perdida. O Tiago Pereira é uma dessas pessoas, ele habituou-nos a sabermos e a gostarmos um pouco mais de nós próprios (através da música – a música portuguesa a gostar dela própria; da comida – a comida portuguesa a gostar dela própria; e da dança – a dança portuguesa a gostar dela própria).

Ser filho de Júlio Pereira (o conhecido homem dos 7 instrumentos, apaixonado pelas raízes musicais portuguesas), deu-lhe um contexto fortemente tradicional mas, apesar desta herança, o que transformou um Tiago citadino e amante de hip hop num “alfabetizador da memória” rural portuguesa, foi a sua estranha ligação à tradição oral. Ouve sempre algo que o prendeu a isso, uma espécie de chamamento latente. E assim começou a sua já longa viagem por uma vasta recolha etnográfica (muito diferente da de Michel Giacometti), um caminho pelo lado imaterial da cultura oral portuguesa, lugar que vive apenas da memória de muitos.

Percebo agora, não podemos correr o risco de perder esta “memória”, é preciso documentá-la, avivá-la para que não morra, para que a possamos vincar. Precisamos saber do que somos feitos porque somos mais do que apenas descobridores e fadistas. Como é que num país tão pequeno, desconhecemos tanto de nós? Parece que estamos sempre à procura nos mesmos sítios e o que não vemos não existe.

As velhinhas de cantar tremido do Tiago, são as nossas avós. Quando as oiço lembro-me da minha avó materna, a Ti Piedade, a cantar de timbre trémulo, como quem põe a mão na garganta e a faz tremer em jeito propositado (o peso dos anos na voz). As tardes invernosas de domingo eram passadas à lareira da casa da minha avó e eram recheadas de cantares, histórias, ladainhas. Tudo habitava na memória dela porque nunca soube escrever, nem ler. Há coisas preciosas que os livros não têm.

O que é tradicional tem-se confinado a museus, a salas fechadas, a catálogos e rótulos mortos, sem vida. O tradicional ainda vive, o Tiago descobriu isso, mas é difícil, parece que em Portugal ainda existe um forte preconceito sobre o lado mais rural dos portugueses. Não se mostra muito. Por vergonha?

A mim interessa-me o surrealismo popular, como é que as pessoas tiveram escape dos trabalhos árduos, a mistura entre o pagão e o religioso, muito surrealista, que a tradição tem.” – Tiago Pereira

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(Texto: Raquel Félix/ Portugalize.Me/ Imagem 1 – a música portuguesa a gostar dela própria/ Imagem 2 – RTP media/ Tiago Pereira)